• Entrevista com Ras Maurício E Pedro Pedrada

    Postado em 11/07/08 por Dacal

    REGGAEMOVIMENTO: Fala um pouco da trajetória musical de vocês e como se deu o primeiro contato com a música até chegarem aos projetos que participam ativamente hoje em dia.

    PEDRO PEDRADA: É difícil de forma resumida contar a história da sua vida, mas de qualquer forma sempre tive algum envolvimento com a música, mas começou a ficar séria mesmo através do Ponto de Equilíbrio e a partir disso, pude me dedicar a um maior aprofundando no estudo e pesquisa musical, experimentar mais em estúdio, produção musical, e dentro dessa jornada, o tempo trouxe essa união com o irmão Mauricio (banda aliança) até podermos estar agora concebendo este multiprojeto que está aberto a parcerias variadas com outros irmãos que se identifiquem com nossa proposta, que está dentro da essência do reggae-rasta.

    RAS MAURICIO: Eu comecei a música aos 13 anos na bateria em bandas de rock, até que aos 16,17 anos comecei a me interessar a mergulhar mais na música brasileira, que nesta época , meados dos anos 90, estava muito misturado com o reggae, e foi assim que eu cheguei no reggae, através da música de raiz brasileira, e a partir deste contato fui me aprofundando mais e identificando mais com suas origens, pois me libertou em vários sentidos, principalmente na parte espiritual, com sua mensagem de vivencia, a ligação ancestral com a África de uma forma mais evidente e clara. E nesta trajetória toquei em muitas bandas de reggae, o que foi importante para eu vivenciar mais o que era o reggae, porque naquela época não tinha tanto acesso a informação, internet, e essa quantidade toda de veículos difusores que temos hoje. Então dentro do meio das pessoas que gostavam é que circulavam fitinhas, vídeos, livros,enfim, material para conhecer mais. E dentro desse processo todo, que foi uma verdadeira escola, conheci os irmãos do Ponto de Equilíbrio, bem no começo mesmo, na época dos primeiros shows. Nós testemunhamos o amadurecimento conjunto dentro da vivencia e aprendizado no reggae. E essa relação de afinidade musical e de amizade com o Pedro vem se fortalecendo ao longo dos anos que estamos mais próximos aqui em Niterói e podendo levar mais a frente nossas idéias e projetos musicais conjuntos além dos que fortemente já abraçamos como as bandas das quais cada um faz parte. O grande desfecho dessa afinidade e parceria esta se concretizando agora com o estúdio de gravação e este projeto da produção de riddims.

    REGGAEMOVIMENTO: Este projeto conjunto que estão realizando tem uma forte pegada de músicos de reggae experientes juntos em estúdio elaborando riddims originais. A intenção é trazer efetivamente esta cultura forte na história do reggae e da Jamaica para o Brasil?

    PEDRO PEDRADA: Pois é, nós como admiradores do reggae buscamos muita referencia na Jamaica. E lá a partir de meados dos anos 60 explodiu a cultura do riddim, sendo muito forte na ilha e em várias partes do mundo até hoje. E aqui no Brasil estamos trazendo este trabalho para somar com nossa forma musical e criatividade firmes na intenção de difundir ampliar esta importante cultura responsável pelo surgimento de grandes cantores com belas letras, aliados a arranjadores talentosos ao longo da história da musica reggae. E o nosso objetivo é esse, por isso, quem tiver identificação com esta proposta, uma letra inspirada e quiser gravar em um de nossos riddims será muito bem vindo, o único pré-requisito é estar na mesma sintonia, se não…desliga ! (risos)

    RAS MAURICIO: Começamos com este projeto primeiramente com uma proposta de estudo e aprofundamento da pesquisa sobre o riddim. O Pedro desenvolvendo suas linhas de baixo, eu com as de bateria, a estrutura de gravação, captação, timbres, enfim, todo o processo técnico e criativo que envolve a produção do riddim. Com isso nos decidimos a experimentar todas as formas e fases da música reggae. Queremos aproveitar todo potencial libertário impresso na concepção da base e experimentar todas as fases da música reggae. Não se prender a velha escola somente, ao período dos anos 70, mas abranger todas as épocas, do rockstead ao dancehall. Por termos em mente essa proposta ampla, sabíamos que o estudo era fundamental, porque cada gênero dentro da musica reggae, tem uma forma de ser gravada e tocada, e arranjada. Por isso, todo esse processo de criação dos riddins até estarmos agora com o estúdio, se calcou principalmente a partir de nosso desejo de produzir riddins brasileiros originais, com a qualidade e o cuidado que acompanharam sua história desde a Jamaica. Outra forte motivação é o caráter coletivo, de podermos estar fomentando um importante intercambio cultural e criativo com outros músicos a partir desta produção.

    REGGAEMOVIMENTO: Fala um pouco da estrutura da criação de um riddim. Do arranjo, a gravação e produção. Como se dá esse processo?

    RAS MAURICIO: Eu e o Pedro atuamos no esqueleto da música. Baixo e bateria , montando a coluna vertebral da música. A partir disso convocamos nossos parceiros e amigos que já temos uma relação de confiança e afinidade com a linguagem musical, para que de forma bem livre possam somar e mostrar sua contribuição e valor na construção da música. Essas contribuições vem de varias formas, seja no teclado, na voz, letra, sopro… A gente dá o start para todo o processo de criação conjunto que vem a partir daí. Claro que muitas vezes já temos algumas idéias de arranjo para os demais instrumentos, mas o processo vem sendo tão natural e dinâmico que muitas vezes nossos convocados já chegam aqui contribuindo espontaneamente a partir de suas impressões sobre o riddim. Acredito que isso seja o mais interessante e surpreendente no riddim. Sua abrangência de muitos poderem colaborar com outros elementos em cima de uma idéia inicial.

    REGGAEMOVIMENTO: Existe uma polêmica muita grande em cima da musica reggae, acredito que principalmente no Brasil, em relação ao reggae “verdadeiro” , reggae roots, reggae eletrônico, ragga, dancehall, em que muitos atribuem valor somente à reprodução do reggae dos anos 70 da Jamaica, mesmo que aqui no Brasil tenhamos características bem próprias em cima desta fase do reggae, como a forte ligação com ritmos regionais. Falem um pouco de como vêem estas questões. O que é a musica reggae na concepção de vocês?

    RAS MAURICIO: Quando falamos em reggae raiz no Brasil é bem difícil. Porque quem é o reggae raiz? É o Burning Spear, Bob Marley, produtores como Lee Perry, e tantos outros nomes que fizeram parte da raiz, da essência do reggae, a base. Agora falar no reggae de raiz no Brasil sem remeter a um período da Jamaica é impossível. Mas não tem como ser purista neste sentido, porque estamos aqui e temos nossas referencias. Nós por exemplo, fazemos uma musica inspirada neste período do reggae da Jamaica, mas temos nossas próprias contribuições também provindas de nossa cultura, como o samba de raiz e outras. Claro que temos o respeito ao formato, padrões e toda estrutura da musica reggae na qual estudamos, mas eu particularmente não gosto deste rótulo de “reggae de raiz” para definir o reggae que fazemos no Brasil. Nós temos comprometimento com a música Jamaicana pioneira, porém temos consciência que o que fazemos tem muito da nossa identidade brasileira impressa.

    É importante lembrar que o reggae raiz preza pelo resgate e pela valorização da cultura matriz, essencial, e o que é esta cultura para nós? É o índio, o negro, são as referencias que nos formaram , nossa base. Não podemos nos prender ao rótulo, se não será difícil enxergar o que está dentro de nós, as nossas raízes, a África que esta dentro de nós e em nosso país.

    PEDRO PEDRADA: A música reggae como todo mundo sabe, nasceu na Jamaica, sendo que com a sua projeção no mundo ao longo de sua história, ela se misturou tanto, mesclou e fundiu influencias que se formos parar para analisar , acharemos mil ramificações e estilos. Então acredito que é muito mais pessoal , mas pessoal do que segmentado por gêneros. O que eu entendo do reggae mesmo, é o reggae jamaicano dos anos 70, mas tem muita coisa no mundo, como bandas que se inspiraram neles e somaram suas contribuições, como Steel Pulse, que é inglês, e tantas outras. Acredito que nós estamos também dando nossa contribuição, somos brasileiros, e fazemos reggae brasileiro que bebeu claro, muito na fonte do reggae Jamaicano. Mas estamos aqui para fazer e mostrar nossa forma de fazer o reggae. Fazemos de forma coletiva e unida, isso é o mais importante, esta é a nossa verdade.

    REGGAEMOVIMENTO:Gostaria que falassem um pouco das influências musicais de vocês , citando algumas referencias para que os leitores que buscam mais informação no ReggaeMovimento, assim como em outras mídias voltadas para difusão do reggae possam a partir das suas experiências ir de encontro a material de qualidade.

    PEDRO PEDRADA: A gente bebe na fonte do reggae Jamaicano assim como a rica musicalidade de outros países, como a cubana, africana e a própria música brasileira. Mas uma referencia jamaicana importante de ser citada são as produções do Estúdio One, que é nossa maior inspiração até mesmo para nosso trabalho aqui no estúdio e nesta produção de riddim. Porque tinha justamente este compromisso de criar riddims, ajustado por músicos com visão e afinidade entre si, bons arranjos, somado um toque de produção refinado e rimadores,cantores, enfim, instrumentistas variados que poderiam trabalhar em cima da mesma musica. Acreditamos que a melhor referência que podemos citar para um mergulho legal dentro da cultura musical jamaicana começa lá no estúdio One sob a tutela do produtor Coxsone Dodd. Busquem por todo legado com essa assinatura porque é uma verdadeira escola.

    REGGAEMOVIMENTO: Ras Mauricio fala um pouco de como você começou a confeccionar os tambores de nyabhingi e como uma pessoa que gostaria de aprender e se aperfeiçoar tanto na confecção do instrumento, como na pratica do nyabhingi, pode buscar conhecimento.

    RAS MAURICIO: Meu contato com a confecção dos tambores veio através do toque do nyabhingi, do contato com a vivencia e a busca do caminho rastafari na minha vida e prática de rezar e louvar. Para fazer o Nyabhingi a gente precisa de ketê, fundê e bumbo, e esses instrumentos necessários para a prática não existem por aqui. Eu não tinha para ver , e também não tinha quem fizesse na época e eu busquei aprender a fazer o tambor justamente pela dificuldade de encontrar e por minha ânsia de querer aquele timbre e sonoridade para eu poder avançar nos meus estudos e em minha pesquisa. Foi assim que comecei a pesquisar e experimentar e confeccionar os tambores. A minha escola maior foi à observação e prática, porque não tive um mestre que me ensinasse esse ofício, foi a prática minha maior escola. Uma das referencias que tenho contemporânea a mim na confecção de tambores são o Rodrigo Fontinelle e Flávio, do projeto “Construsom” no Rio. Acredito que até mesmo por essa relação familiar que todos temos e por termos os mesmos interesses de busca rítmica e pesquisa musical essa sintonia na relação a fabricação dos tambores aconteceu.

    REGGAEMOVIMENTO: E como é o processo para confeccionar o tambor?

    RAS MAURICIO: Então, no processo de busca da madeira para o tambor, eu não derrubo arvore. No Brasil graças a Deus temos muita abundancia de mata , então eu busco troncos de coqueiros já tenham sido derrubados, seja pela ação humana ou por processo natural. Na mata aqui do Rio ainda encontramos muita matéria-prima, algumas pessoas retiram coqueiro de seus terrenos para limpar outros caem, e eles me servem para confecção dos tambores.Estou sempre de olho quando caminho pra recolher estas matérias. O coro dos tambores eu compro no curtume e eu mesmo trato a pele.

    REGGAEMOVIMENTO: Quem tiver interesse em conhecer mais sobre o tambor de nyabhingi pode buscar onde?

    RAS MAURICIO: Quem quiser buscar sobre o tambor em geral existe muita referencia no Brasi já que somos ricos na influencia da cultura africanal. O de Nyabhingi especificamente pode estar entrando em contato com as pessoas que já estão trabalhando com isso há algum tempo, como os irmãos do Congo Nya de Brasília e nós aqui do Rio, e assim ir praticando com dedicação, porque para nós o tambor e o nyabhingi e uma arma espiritual.

    REGGAEMOVIMENTO: Como vêem hoje a cena reggae no Brasil?

    PEDRO PEDRADA: O reggae no Brasil ainda é muito marginalizado, tem um certo preconceito com a ligação da musica com a planta, além do fato de ser música de negro, protesto, estes fatores mesmo. Outra questão é que é uma música estrangeira, não é a música de origem brasileira. Mas isso não nos desmotiva, porque o reggae é a nossa verdade, o mundo é um todo conectado, uma rede de afinidades, e nós somos fruto disso. Mas temos fé, somos sonhadores e esperançosos de que com o longo do tempo se abram maior abertura e entendimento em relação a musica e mensagem do reggae.

    RAS MAURICIO: Eu penso que nós somos de uma geração que nasceu junto com a chegada do reggae no Brasil. Encarnamos aqui quando Bob se despedia de sua trajetória terrena. No começo dos anos 80, quando o reggae veio criando suas raízes no país, com a contribuição de nomes como Edson Gomes, Cidade Negra, entre outros ele se construiu e desconstruiu várias vezes e cada vez que ele sumia e voltava , vinha mais próximo e com um esclarecimento maior. Por exemplo, na época do Edson Gomes não se havia um entendimento tão grande do que era o rasta, era uma coisa muito difícil de explicar, muito distante. Hoje em dia você houve uma pessoa de 18 anos falando sobre Selassie e com certo conhecimento a respeito. Selassie para mim foi uma descoberta verdadeira, que demorou e fruto de uma vivencia mais longa. Aqui na cidade de Niterói mesmo, ocorreu um movimento forte nos anos 90 com grande participação de bandas e músicos que não era tão fundamentado na base da musica e cultura reggae como já temos hoje, acho que isso é muito interessante de ser observado. Acredito que seja importante a ligação da música reggae com a vivencia espiritual que acompanha toda sua trajetória. Esta verdade esta intimamente ligada e acredito que hoje podemos ver isso de forma mais clara.

    PEDRO PEDRADA: Hoje em dia acredito que a cena brasileira se aproxima mais da essência da musica reggae, e quanto maior entendimento se tiver neste sentido, maior será à força do movimento no Brasil. Acredito que só com a vivencia, com a busca de um entendimento maior do homem com o mundo e a terra, o saber rastafari, e pensarmos na nossa existência com consciência cósmica, enfim, tudo isso somado, pode realmente vir a alimentar um movimento real e autentico do reggae no Brasil.Eu sou bem otimista em relação a isso.

    REGGAEMOVIMENTO: Muito obrigada pelo rico diálogo em torno da música e cultura reggae e parabéns pela iniciativa. Peço que deixem suas considerações finais para os leitores do ReggaeMovimento.

    PEDRO PEDRADA: É , vamos seguir firme na luta que tudo está só começando. O que tenho a dizer é isso: Prontidão e perseverança, o mundo está ficando uma coisa meio caótica, mas não vamos desanimar porque a fé segura todas as barreiras, derruba os obstáculos e sobe os degraus.

    RAS MAURICIO: Minha mensagem é para que os leitores busquem sempre o fundamento da música reggae. O reggae não é só um gênero musical , é muito mais que isso. Acredito que se hoje temos este verdadeiro fenômeno musical no mundo todo, foi graças à fé dos pioneiros e sua relação intima com uma verdade, e essa verdade é Rastafari. Acredito que precisamos atentar mais o olhar para não fazer do reggae aqui apenas uma reprodução de adereços , roupas e artigos verde, amarelo e verde, mas sim, buscar o sentido destas cores, a base e o conhecimento para que tudo isso faça realmente sentido como faz para nós que nos dedicamos e entregamos nossas vidas a esta verdade que o reggae nos inspirou e mostrou. Espero que os jovens percebam que o reggae é muito mais que vestir uma roupa temática, ir a um show, ou ter dreads, o importante é a atitude, a retidão e a firmeza; assim como o irmão Pedro falou. Firmeza de caráter para que possamos nos redimir e buscar nosso perdão, para podermos nos purificar nessa jornada terrena. Positividade e consciência para mim e para todos, é o que desejo.

    Contato para informações sobre os tambores Nyabhingi e produção de Riddims:

    aliancadrums@hotmail.com

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