• Entrevista com Ras André (Ponto de Equilíbrio-RJ) e Nzambi (Recife-PE)

    Postado em 28/02/07 por Mendez (no Fábrica Estúdio, Recife-PE)

    “Nosso correspondente em Recife , Dj Mendez, foi a Fábrica Estúdio para bater um papo exclusivo com a banda Pernambucana Nzambi, cuja produção musical do cd será assinada por Ras André (Ponto de Equilíbrio) , juntos, gentilmente receberam o reggaemovimento para esta conversa que aborda vários assuntos como , processo de produção, cena independente, algumas curiosidades sobre os discos do Ponto de Equilíbrio e é claro, um pouco sobre a cena reggae do Recife e sua contribuição e participação no movimento nacional. Um papo descontraído entre irmãos , em torno da música reggae”. Aproveitem o conteúdo ! “

    (Dacal – reggaemovimento)

    Mendez: Ras, o pessoal conhece seu trabalho como , como começou essa história de...

    Ras André: Na verdade essa historia de produzir surgiu da tentativa de buscar um som mais fiel ao que a gente queria, gravamos muitas fitas “demo”, o Ponto durante 3 anos gravou varias demos. Durante esse tempo, a gente tinha dificuldades, primeiro de fazer com que a galera gravasse , estávamos trabalhando com fitas demo , coisas menos profissionais e tal, e a galera não tinha muito a manha de conseguir chegar no som que agente queria entendeu ? Aí depois de uma gravação que fizemos em um estúdiomuito bom, tudo massa, e mesmo assim não conseguimos achar o som que gostaríamos, que comecei a me envolver mais. Então, desde as primeiras demos eu sempre estive envolvido nessa coisa de arranjo , harmonia ...

    Mendez: No primeiro cd do Ponto , você foi produtor, não foi?

    Ras André: Pois é, aí passando este tempo, comecei a fazer umas produções, também estava trabalhando como técnico do estúdio de um amigo e aí consgeguimos gravar o Reggae a Vida com Amor, que foi produzido por mim e pela banda, mas eu assumi a função de produtor musical do disco.

    E depois disso, a gente vem trabalhando , já produzi uns discos de capoeira de angola também, participei agora da co-produção do novo disco do Ponto, Abre a Janela, que foi produzido pelo Chico Neves, um super produtor, e é isso, no caso agora que passou a fase do Abre a Janela, eu estou voltando a tocar esses outros trampos paralelos. É isso, uma coisa ajuda a outra.

    Mendez: Então produção é uma coisa secundaria pra vc ?

    Ras André: Não, é paralela , vamos dizer assim. Uma função contribui a outra, porque eu acredito que meu trampo de produtor ajuda a tirar o melhor som como guitarrista, e como músico, com a noção de harmonia e essas coisas todas, que já me dão um background legal pra eu fazer arranjos e tal quando estou na produção, Então eu vejo muito como as coisas se encontrando entendeu? Nos trabalhos de produção que eu faço , geralmente gravo alguma coisa, quer dizer, eu interfiro musicalmente com algum arranjo, só que a diferença é que não estou dentro do trabalho.A diferença é que estou de fora buscando encontrar a identidade do que todos estamos fazendo.

    Mendez: E o trabalho de produção, você fez alguma capacitação para produzir ou foi...

    Ras André: Não , fiz um curso, que aliais vou até fazer uma propagandazinha porque vale a pena. Chama-se Home Studio, um curso no Rio de Janeiro muito bom que foi minha minha escola , claro que você só aprende mesmo quando mete a mão na massa para gravar e tal, mas o background técnico e tudo mais que me permitiu estar começando a ter a desenvoltura para gravar foi o Home Studio, que aliais me ensinou a gravar com simplicidade e tirando um som legal, verdadeiro, porque neste meio de produção, tem muito neguinho que esconde as coisas e tal, e os professores deste curso (Serginho e Edson) são caras super abertos e ensinam tudo , sem segredos para você dar o pulo do gato. Eles ensinam que é o que é simplesmente. Ensinam a gente a tirar um som fiel e digno, vamos dizer assim...

    Mendez: O Pontode Equilíbrio é uma banda independente, e vocês tem vendido muito disco. Chegaram até a fazer um esquema com a Deck Disc (Gravadora) , mais parece que não...Essa parceria ainda está rolando?

    Ras André : A gente ainda continua distribuindo o REGGAE A VIDA COM AMOR pela DECK DISC, mas agente vendeu mais disco q eles, isso significa o seguinte: eles pegaram nosso disco, nao fizeram a divulgacao que agente achava q era o interessante na parceria com eles e aumentaram o preco pro publico aumentou em 10 reais na loja, tudo bem chega em vários lugares do Brasil mas não tem uma divulgação de prateleira, não ha uma divulgacao na midia e tal, em radio nada disso, e ainda aumenta o preço do disco, hj em dia internet essas coisa todas, agente tem que trazer o disco por um preço mais popular entendeu ?

    Mendez: Justamente o que eu ia falar, tem muitas bandas que dizem que Cd não dá mais dinheiro, por vários fatores inclusive a questão de pirataria. Como você spensam em distribuir ? Vão continuar neste esquema, ou vão...

    Ras André: Olha, continuar nesse esquema não vamos não, a gente gravou o disco independente também como o outro, e estamos abrindo um selo agora, por onde vamos abrir ainda está indefinido, estamos para definir isso por agora, só que o que eu penso é que não tem muito formulas prontas assim sabe ?

    Eu acho realmente que o PONTO alcançou como independente uma coisa muito forte ! Essas parcerias que viemos fazendo estão sempre ajudando para caramba Sabe? Só que tem que ser os dois lados, bom para os dois lados, para a gente e para a parceria, entendeu ?Então a gente está estudando qual é a melhor forma, porque uma das grandes reclamações do nosso público é que nossos discos não chegam até eles, eles procuram o disco na loja e não conseguem encontrar e a proposta de entrar numa distribuidora era justamente suprir isso.

    Mendez: Fala um pouco das suas influencias na música e no reggae, e também as que tem como guitarrista...

    Ras André: Influência na música, é musica que toca o coração, música de preferência de origem africana, ou das misturas de descendência africana que eh a musica que eu mais me interesso, tanto blues, quanto jazz quanto os ritmos q deram origem ao reggae, que é o rock, o ska, o rocksteady, o rhythm blues americano e os ritmos brasileiros, principalmente o samba, o maracatu saca? Que apesar da gente não ser daqui, somos muito influenciados por essa coisa toda, rola no rio bastante coco, maracatu, jongo, que é mais de lá do rio mesmo sabe ? E musica africana em geral, musica psicodélica dos anos 70, jazz pra caramba, fusion, eu gosto pra caramba de Coltrane, Miles Davis, Hermeto Pacoal , Felá Kuti... e no Felá Kuti... e no reggae, o da década de 70 né cara...principalmente os mestres pra mim são JACK RUBBY, os produtores neh LEE PERRY, e os cantores: Burning Spear, Waillers, Ernish Hangling, Skatalites, toda essa coisa meio Soul Jazz no reggae que é uma das partes mais interessantes , e o dub no reggae...

    Mendez: E esse convite da NZambi para fazer a produção faz tempo? Vocês já tocaram com eles mais de uma vez aqui..

    Ras André: Sempre foi legal, sacou? A gente tem uma relação legal que agora está se estreitando ainda mais. A banda tem uma proposta bem massa, autentica sacou? Eles têm a historia deles .

    Mendez: O que mais te motivou para estar fazendo a produção dos caras?

    Ras André: Rolou esse contato, a gente está tocando sempre junto e tal...Conhecemos a galera que trabalha com eles também, o pessoal da ZeroNeutro, então eles curtiram o trabalho do Reggae a Vida com Amor e foi assim que rolou este convite e começamos a conversar sobre o trabalho. A principio ia ser só a mixagem e masterização a ser feita no Rio mesmo, mas aí começamos a trocar mais idéia e ver como seria a questão de produzir e tal, e estamos aí agora né cara, está sendo muito bom para caramba, uma experiência foda...

    Mendez: Esse esquema do reggae aqui em Recife, o que vocês acham do público? Acreditam na força do reggae por aqui?

    Ras André: Com certeza, o reggae aqui é muito forte, a galera está ligada na cultura e na música pra caramba...

    Mendez: Vocês tocaram aqui ano passado 3 vezes...

    Ras André: Acho que aqui em PERNAMBUCO a galera é bem do tipo da galera que agente gosta entendeu ? A galera gosta de tocar de meter a mão mesmo assim, não tem muito essa coisa de estrela e tal sabe? É a galera q gosta de meter a mão no tambor, meter a mão no instrumento e tocar, e esse é o tipo de som q agente curte, vem da alma mesmo, uma coisa que tem um axé assim forte pra caramba, por isso q agente se identifica muito, entendeu ? Então pra mim está sendo tanto bom estar convivendo aqui com a galera, estar convivendo com a galera da NZAMBI, estar convivendo com a galera de RECIFE, de OLINDA, pegar esse finalzinho de carnaval essa coisa toda, estar trabalhando nesse estúdio com essa galera massa tudo mais, está sendo ótimo, espero que esse seja o primeiro de vários trabalhos que agente venha a fazer aqui tanto com a galera da NZAMBI quanto em RECIFE geral, ...

    Mendez: Então manda uma mensagem para galera do ReggaeMovimento, pergunta para fechar...

    Ras André: A mensagem é que a música ela liberta as almas, e liberta das barreiras que o sistema tenta botar entre a gente. Vamos perder os preconceitos, e ouvir a musica que vem do coração de verdade, que essa é que é a mais importante !

    Mendez: Fala um pouco de vocês...

    NZambi: Acompanho o reggae em Recife a muito tempo...Meu pai é musico também e nós sempre Vivemos assim, Recife sempre tem os picos altos de Reggae..., Passa 1 ano o Reggae bombando, depois chega outro ano e cai, mas de 2000 pra cá acho que a cena deu uma segurada e está subindo cada vez mais ...

    Mendez: E esse esquema de grandes nomes de fora tocando aqui?

    NZambi: Pois é, acho que o que está se segurando mais o reggae aqui é justamente o pessoal que vem de fora, mas isso sempre aconteceu na realidade, The Waillers já veio, Alpha Blondy já veio, mas a questão que segura mais é o veículo da Internet, porque aqui não temos veiculo de comunicação que fale do reggae, a gente não tem rádio, não tem tv, não tem loja de reggae, na realidade o que acontece são espaços paralelos que são criados ...

    Mendez: Esse esquema da gente do REGGAEMOVIMENTO é pra que possa catalisar bandas daqui e jogar pra mídia...

    NZambi: É importante isso porque a Internet é que está sendo o espaço pra isso, tanto pra o movimento reggae se manter em PE quanto pra PE conhecer o que vem de fora no caso o PONTO DE EQUILIBRIO, se não fosse o que a Internet hoje acho que seria difícil a gente conhecer o PONTO, eles foram divulgados por MP3, quando nós fomos tocar em Natal, assim quando tínhamos acabado de conhecer o PONTO DE EQUILIBRIO, a gente chegou lá e estava a galera tocando o Ponto também! Pensei que legal a galera aqui conhece...Acho que a Internet que conseguiu furar isso aí

    Mendez: E vocês estão no REGGAEMOVIMENTO a um tempão, o site tem mais ou menos 1 ano e 5 meses, e vocês já estão a mais de 7 meses por lá...

    NZambi: Isso aí...Acho q foi o pessoal de alguma banda, foi o MASSATIVA, que deu o toque pra gente pra colocar, a gente já tinha colocado em vários sites, aí pintou a oportunidade e agente colocou lá.

    Mendez: Vocês nesse processo de gravação se influencia por algum tipo de música? O que está escutando no momento, enfim...

    NZambi: Durante a gravação não, acho que o que a gravação passa a ser uma finalização do que você tem da compreensão de musica e o que você já ouve naturalmente, a influencia que outra musica tem no som da gente, é a influencia natural, do que já escutamos, gostamos...O que eu procuro fazer mais durante o processo, é tentar pegar um pouco dos detalhes do que eu tenho de referencia de som, daí , de repente, eu posso ter alguma dica, uma deixa de arranjo, uma frase, enfim...de uma coisa ou outra assim. Mas no mais, é o que a gente tem naturalmente mesmo...

    Mendez: Então, manda um recado para galera do ReggaeMovimento...

    NZambi: O que eu tenho a dizer é que a galera que curte reggae,tenha essa certeza que o reggae é muito mais que uma musica, é uma musica de atitude, é o que precisa ser mais explorado, não adianta eu curtir o reggae , não adianta eu ouvir reggae ou ter uma banda de reggae, se aquilo não vai influenciar na minha vida pratica, Eu não digo de você ser RASTAFARI, de vc fazer DREAD,até mesmo porque eu tenho DREAD mas não sigo a filosofia RASTAFARI, mas respeito, eu tenho uma linha mais ligada a questão política, meu foco maior no dentro do reggae é não ação política, eu tenho muito isso, dos movimentos sociais, acho que é isso que o reggae precisa fazer pra se constituir enquanto movimento, eu gosto muito do REGGAEMOVIMENTO eu lembro q tinha informações interessantes referentes a questões políticas, acho que é legal isso, não é soh a questao do rastafari em si, vc tentar criar uma situacao, agente vive numa realidade, em que a musica precisa ser casada com a ação política, e o reggae é o espaço pra isso, então não adianta você estar ouvindo reggae, não adianta vc fazer reggae, se aquilo alí não está interferindo na tua ação prática, se você é um cara que ouve reggae, mas querendo ou não querendo você é um cara que se vende a uma burguesia, no sentindo de legitimar o preconceito, no sentido de você afirmar a sociedade de consumo ...Vou dar um exemplo que aconteceu também que achei legal, aconteceu o movimento do passe livre aqui em Recife, eu achava que a galera do Reggae ia estar lá , tinha uma galera ou outra, mas eu vi mais a galera do HIP HOP, acho que o HIP HOP tem muito essa atitude, acho que o reggae precisa construir isso também essa ousadia de dizer: Agente é artista, mas todo artista é um ser pensante, e ele tem q ser um ser político também !

    Agradecemos a receptividade de Ras André e da Banda Nzambi, e parabenizamos nosso correspondente Mendez pelo trabalho e fomentação do movimento em Recife. reggaemovimento.com

    utor que o público não conhece muito...

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