• Entrevista com Jorge Makandal

    Postado em 30/02/06 por Dacal

    Inaugurando a sessão, entrevistamos Jorge "MaKandal", no dia 29/02/2006 no Centro Cultura Rasta Brasil , Sana (RJ).

    Administrador do espaço, que além de ser um local de vivencia da cultura reggae associada à filosofia rasta, é também um camping, muito conhecido na região como "JAMAICA". O espaço ainda conta com uma loja que apresenta um vasto acervo de peças, acessório e cd´s de reggae, nacionais, internacionais e uma bela vitrine da produção reggae independente brasileira

    Jorge Makandal

    ReggaeMovimento: Há quanto tempo existe o Centro Cultural Rasta Brasil e o camping Jamaica? Fale um pouco das experiências adquiridas desde então.

    Jorge Makandal: O camping Jamaica tem 10 anos e o Núcleo Cultura Rasta Brasil tem 8 anos. Mas eu acompanho o reggae já há 28 anos. Tive a honra de assistir ao show do Bob Marley na França em 1971 . E foi muito importante para mim.

    Hoje em dia o Núcleo Cultura Rasta Brasil procura cada vez mais aproximar-se do aspecto espiritual e filosófico da cultura rasta. O reggae não tem como ser separado do rasta, apesar de você poder gostar de reggae e seguir qualquer doutrina. No entanto os rastas vêem o reggae como sagrado.

    A industria existe, o mercado da reggae music também, e isso é um fato necessário, faz parte, esse é o lado profano do reggae. É necessário porém, estar sempre buscando o equilíbrio entre o Sagrado e o Profano da cultura reggae.

    ReggaeMovimento: Você é também músico e compositor, o que acha que está faltando ou sobrando no reggae brasileiro?

    Jorge Makandal: Acho que as bandas podem ser independentes, porém organizadas. Porque a Babilônia é organizada! Então só há uma forma e maneira de vencer: Criando uma estrutura de trabalho organizada.

    Noções de Equilíbrio e logística, são fundamentos importantes para as bandas desenvolverem.

    Para as bandas ficarem fortes, elas tem que funcionar como Tribo e como Empresa. Brigas e vaidades, destroem muitas bandas. Elas precisam se unir por elos de amor.

    Porque o Núcleo Cultura Rasta Brasil funciona? Porque é pensado como empresa e também como elo espiritual. Cada um com seu devido peso. Nós no Brasil, não podemos manter uma visão extremista como na Etiópia ou na Jamaica,aqui no Brasil, com uma cultura tão forte e rica, as relações têm de ser mais fluidas. O reggae nacional pe muito rico devido a grande fusão de ritmos, e a tendência, é termos cada vez mais um mercado de reggae forte e organizado.

    Acho inaceitável uma banda com um trabalho coeso de por exemplo 5, 6 anos, de uma hora para outra terminar. Isso demonstra a falta de preparo das bandas de lidar com duas esferas distintas dentro do trabalho. A espiritual e a material. Os interesses comerciais não podem suplantar os espirituais e vice-versa. Por mais que pareça difícil.

    ReggaeMovimento: Muitas bandas de destaque já passaram pelo palco do Núcleo Cultura Rasta Brasil, fortalecendo a idéia de que é um local de referência importante, um verdadeiro formador de opnião. Fale um pouco sobre isso.

    Jorge Makandal: Muita bandas já passaram por aqui, grandes trabalhos como: Ponto de Equilíbrio, Monte Zion, Perseverança, Diva, Onda R, Jair Soares, Ciro Lima (Bahia), Alumínio, Jacareggae (Brasília-DF), Don Luís, (que inclusive já morou no núcleo, e fez parte da evolução do reggae no sana),Bagabalô, Punho Forte, Seda Fina, Jah Live (Brasília), Paulinho Ganaê, Unidade Punho Forte, Canamaré, Noção Rasta, Filhos da Luz, Aliança Música Reggae, Resgate da Raiz, Raízes que Tocam, Divina Providência, Rás Bernardo, Via Jah, Restinga, Vibrações de Jah,e muitas outras... Fizemos também aqui um festival que chamamos de “SANASPLASH”, no qual apresentaram-se componentes de várias bandas fazendo fusões , tocando juntos, improvisando, foi muita vibração mesmo!

    ReggaeMovimento: Todos sabem que a cultura reggae está intimamente ligada a fé Rastafari. E esse assunto é bem polêmico. A questão da popularização da cultura, dos ícones envolvidos nela, como palavras, expressões, dreads entre outros, sem no entanto estar associado com informações coesas, conceitos e preceitos do rastafarianismo, são pouco comentados. Como você vê tudo isso?

    Jorge Makandal: Eu procuro seguir a filosofia do rasta, mas não impor os preceitos. Acho que isso não se impõe. Ou você aceita ou não. Tem que ser natural. Aqui no camping nós temos o bar, tem cerveja e tal, mas isso para nós funciona separado do nosso cotidiano e do nosso lado espiritual. Acredito que antes de mais nada o reggae é para relaxar e para trazer a felicidade, isso é o mais importante. Sem extremismos, mas com tranqüilidade para fluir naturalmente.

    Não acho que deva ser imposto aos que ouvem e curtem o reggae, que necessariamente tenham que seguir a doutrina rasta, isso vai de cada um, da busca pessoal de cada um.

    Nós temos um dia-a-dia aqui em harmonia com a natureza, temos nosso horário para nos reunirmos, tocamos Nayambing, e procuramos nos equilibrar ao máximo o lado espiritual com a dinâmica comercial que temos aqui também, do camping e do bar. Procuramos dividir bem os dois lados, para que tudo flua bem.

    ReggaeMovimento: O que acha de cada vez mais os caminhos e a aceitação do público brasileiro para os mais variados segmentos do reggae; como o dub, ragga, dancehall, rocksteady, ska, estarem se abrindo, a exemplo do que já vem acontecendo há tempos no exterior?

    Jorge Makandal: Minha preferência é o “Roots” (Conhecido como a era de ouro na história do reggae, abrangendo o período de 1968 a 1985), mas o reggae é uma música revolucionária e de evolução permanente. É surpreendente perceber o processo, desde o Nayambing, até o ragga, dancehall, toda a história que acompanhou o reggae de um período a outro. O reggae sempre falou das questões da cidade, do urbano, das contradições, é natural que com o avanço da tecnologia tenha se apropriado destas ferramentas e utilizado estes mecanismos, mesclados e fundidos a música reggae.

    Acho essa evolução muito válida, e neste momento específico está sendo importante. O ragga é o filho do reggae, eu diria, e está trazendo um cunho de protesto fundamental, está cumprindo a missão de subverter o marasmo em que o reggae se encontrava.

    ReggaeMovimento: Você fala muito sobre a versão original do reggae. Como define essa versão original?

    Jorge Makandal: A versão original é a “Positive Vibration” (Vibração Positiva), que para nós, é viver no presente, seguindo para o futuro. No entanto nós tentamos nos manter no estilo de vida roots (raízes).

    A vida na cidade e na roça são submetidas a Babilônia, só que na roça conseguimos nos manter mais conectados com a natureza, temos os frutos da terra, vivemos em harmonia com o ambiente. E isso é muito importante. Tem o outro lado que perdemos um pouco da tecnologia e das facilidades da vida moderna, mas valorizamos mais o equilíbrio e a felicidade, esta é nossa meta e conseguimos isso aqui.

    ReggaeMovimento: Cite alguns nomes que admira.

    Jorge Makandal: Selassie, Jesus Cristo, Bob Marley, Burning Spear,Mutabaruka, Rás Michel, Lewroy, Anthony B, Sizzla, Ciro Lima, Dionorina, Jorge Angélica, Rás Bernardo, Xandu (Rio Reggae), Hélio (Ponto de Equilíbrio), Santa Cruz, Walking Lions, dentre muitos outros...

    ReggaeMovimento: O núcleo é um coletivo, uma união que faz ele funcionar em harmonia. Cite seus colaboradores.

    Jorge Makandal: Ribamar do Reggae, Rás Romeu, Rás Ivan, muitas irmãs que sempre nos ajudaram muito aqui na história do Núcleo Cultura Rasta Brasil, Johnny B. Good, Delpha Reggae, entre muitos outros amigos e parceiros...

    ReggaeMovimento: Um recado para o reggaemovimento

    Jorge Makandal: Desejo felicidades com o trabalho que estão fazendo, e espero que haja compreensão por parte do público e do movimento como um todo para o trabalho que estão desenvolvendo, pois é muito importante para a divulgação e favorece a organização do reggae no Brasil.

    ReggaeMovimento: Um recado para nossos navegantes.

    Jorge Makandal: Quanto mais reggae na veia e respeito melhor! Muita Felicidade a todos.

    Com muita satisfação fizemos este primeira Identidade Reggae com Jorge Makandal, podendo assim, trazer um pouco de suas reflexões e a visão pessoal desta personalidade que acompanha intimamente os processos pertinentes ao reggae a algumas décadas. Muita Vibração Positiva a todos do Núcleo Rasta Brasil!

    *Para quem quiser visitar o Núcleo Rasta Brasil ou utilizar seus serviçoes de camping, pode entrar em contato pelo tel: (22) 2793-2484 ou pelo e-mail: mailto:jamaicasana@oi.com.br

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